Publicado em 09 de junho de 2026
Durante o GPAI Innovation Workshop Rio de Janeiro 2026, ficou evidente que uma das principais discussões globais sobre Inteligência Artificial já não está centrada apenas na evolução dos modelos ou no aumento da capacidade computacional. O desafio agora é outro: como criar mecanismos de governança que acompanhem a velocidade da inovação sem limitar seu potencial transformador.
Foi justamente esse o foco do grupo de trabalho do qual participei, reunido em torno do tema “Cooperation Frameworks for AI Governance: Transitioning Toward Collaborative Modular Innovation“.
O GPAI (Parceria Global em Inteligência Artificial) funcionou, neste contexto, como uma iniciativa estratégica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para aproximar o Brasil do planejamento estratégico de três grandes centros internacionais de referência em IA: França, Canadá e Japão. Com isso, os temas debatidos no workshop têm impacto direto nas cooperações futuras com parceiros globais. Para o Atlântico, essa articulação representa uma oportunidade de ouro para expandir sua influência internacional para além do Canadá, alcançando também a Europa (França) e a Ásia (Japão).
A discussão partiu de uma constatação compartilhada por especialistas de diferentes países: os modelos tradicionais de governança têm dificuldade para acompanhar uma tecnologia que evolui continuamente, atravessa fronteiras e impacta setores inteiros da sociedade em ritmo acelerado. Nesse cenário, soluções centralizadas tendem a ser insuficientes.
A alternativa debatida foi a construção de modelos colaborativos e modulares, capazes de conectar governos, centros de pesquisa, indústria e sociedade civil em ciclos contínuos de experimentação, aprendizado e adaptação.
A alternativa debatida foi a construção de modelos colaborativos e modulares, capazes de conectar governos, centros de pesquisa, indústria e sociedade civil em ciclos contínuos de experimentação, aprendizado e adaptação.
Foi nesse contexto que surgiu a proposta de um Living AI Lab: um ambiente permanente de colaboração onde pesquisadores, formuladores de políticas públicas e organizações possam testar abordagens de governança, avaliar impactos e produzir conhecimento aplicado para orientar decisões futuras.
Dada a nossa participação ativa no evento, o desenho desse laboratório reflete um alinhamento fino entre a política de IA promovida pelo MCTI e o direcionamento dessas grandes organizações internacionais. Mais do que um laboratório, a ideia representa uma nova forma de pensar o desenvolvimento da IA. Em vez de reagir às transformações tecnológicas depois que elas acontecem, o objetivo é criar estruturas capazes de aprender junto com elas.
Um dos momentos mais significativos do workshop foi a seleção da proposta apresentada por mim durante as atividades colaborativas do evento. O tema escolhido será levado para análise estratégica dos programas internacionais de pesquisa vinculados ao GPAI, envolvendo centros de pesquisa que atuam na construção das agendas globais de Inteligência Artificial.
Como resultado prático dessas discussões na conferência, conseguiu-se a inclusão da proposta do Alia (Laboratório de Inteligência Artificial do Atlântico) como um modelo de referência para um laboratório de IA autossustentável, estruturado por meio de financiamentos públicos e privados.
É importante observar que a temática discutida já integra linhas de pesquisa desenvolvidas pelo Alia, o que demonstra a sintonia entre capacidades nacionais e debates que vêm ganhando espaço nos fóruns internacionais. Essa convergência cria uma oportunidade importante para o posicionamento do Brasil e do Atlântico em futuras iniciativas internacionais de pesquisa e desenvolvimento.
Mais do que o reconhecimento de uma ideia, o episódio evidencia uma tendência global: a valorização de ecossistemas capazes de combinar excelência científica, infraestrutura tecnológica e conhecimento aplicado em desafios reais.
As discussões realizadas durante o GPAI dialogam diretamente com objetivos presentes na Política Brasileira de Inteligência Artificial (PBIA), especialmente aqueles relacionados à criação e fortalecimento de centros nacionais de pesquisa e inovação em IA. Essa ponte reforça a sinergia entre as diretrizes de fomento à inovação do MCTI e as demandas de governança global.
O fortalecimento de ambientes capazes de produzir conhecimento, formar talentos, desenvolver infraestrutura e gerar aplicações de alto impacto é uma condição necessária para que o Brasil amplie sua participação na economia global baseada em dados e inteligência artificial.
Nesse contexto, iniciativas como o Alia demonstram como capacidades construídas localmente podem se conectar a agendas internacionais e contribuir para posicionar o país em temas estratégicos para as próximas décadas.
Talvez o principal aprendizado do GPAI Innovation Workshop Rio de Janeiro 2026 seja que o futuro da Inteligência Artificial não será determinado apenas por quem possui os maiores modelos ou os maiores investimentos.
A próxima fase da IA será definida pela capacidade de conectar conhecimento local e impacto global, diversidade cultural e excelência técnica, inovação tecnológica e responsabilidade social.
Para o Brasil, essa é uma oportunidade única. E para instituições que já vêm investindo na construção de competências científicas, infraestrutura e pesquisa aplicada, o momento reforça a importância de continuar preparando o terreno para participar ativamente das decisões e iniciativas que moldarão o futuro da Inteligência Artificial no mundo.

Leonardo Marques Rocha
Pesquisador do Atlântico
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